Ovento minuano soprava cortante pelas frestas da antiga Estação Ferroviária de Cidade Ventura. Inácio, com seu sobretudo impecável e olhar analítico, aguardava Clarissa. Quando ela surgiu, com o semblante cansado de quem carregava o peso de pilhas de processos estaduais, o cumprimento foi breve. Eram velhos conhecidos, unidos por uma amizade que sobrevivia apenas pelo prazer do embate intelectual. O cenário estava montado para o reencontro de duas visões de mundo que raramente se tocavam, apesar de caminharem sobre o mesmo chão de terra vermelha.

Sentaram-se em um café próximo à praça da Matriz. Inácio, sempre direto, não demorou a lançar a primeira isca. "Vi que o governo anunciou o novo Vale Feira para vocês," comentou ele, com um sorriso de canto. "É fascinante como o setor público cria ilhas de conforto. Enquanto isso, o pequeno empresário da cidade mal consegue pagar o piso salarial sem sufocar. Vocês vivem em uma redoma de vidro, Clarissa, protegidos por leis que o resto do Brasil desconhece."


Inácio continuou, gesticulando com a precisão de um cirurgião. "Falo da realidade nua e crua. O trabalhador comum, o que limpa este chão, não tem estabilidade. Se a empresa quebra, ele vai ao relento. Já você, tem o luxo de planejar a vida décadas à frente. O 'privilégio' não é uma palavra forte, é apenas uma descrição técnica da sua realidade." Ele falava com a autoridade de quem lida com números e resultados imediatos na iniciativa privada.


Clarissa sentiu o sangue subir. "Privilégio, Inácio? Você fala como se eu tivesse herdado um título de nobreza," rebateu ela, a voz firme. "Esqueceste dos anos que passei trancada estudando para um concurso dificílimo enquanto outros aproveitavam? Esqueceste que meu salário está congelado há tempos e que a inflação devora meu poder de compra sem piedade? O que você chama de redoma, eu chamo de conquista por mérito e esforço intelectual exaustivo."


Inácio deu de ombros, imperturbável. "O esforço é individual, mas a conta é coletiva. O piso salarial que vocês defendem como direito básico é um teto inalcançável para a maioria da população. Quando o Estado garante o seu, ele retira de quem? Do imposto de quem ganha metade do que você ganha." Ele jogava o papel de advogado do diabo com maestria, ignorando as nuances do serviço público para focar na disparidade estrutural.


Clarissa pegou o celular e abriu o portal da transparência, virando a tela para ele. "Olha aqui, Inácio. Olha os descontos. Previdência, imposto de renda, contribuições. O valor líquido que cai na minha conta não paga o luxo que você imagina. Eu sou uma servidora, eu sirvo. Passo o dia resolvendo problemas de uma máquina pública sucateada, sem ar-condicionado, com sistemas que caem. Meu 'privilégio' é ter o direito de trabalhar até a exaustão por uma segurança que vocês demonizam."


"A questão," disse Inácio, suavizando o tom, "é que a sua exaustão ainda é protegida. O dono da padaria aqui da esquina não dorme pensando se terá clientes amanhã. Você dorme sabendo que o seu estará lá. Essa paz de espírito é o maior privilégio de todos, e é por isso que você não consegue enxergar o abismo que existe entre o seu degrau e o dele. Você olha para cima e se sente pobre; o resto da cidade olha para você e vê a elite."


Clarissa guardou o celular, as mãos levemente trêmulas. "E você, Inácio? De qual degrau você fala? Da sua consultoria que cobra em uma hora o que muitos ganham no mês? Você critica a minha segurança para validar a precariedade alheia, ou para esconder o fato de que você também está no topo de uma pirâmide que prefere ignorar? É fácil falar de justiça social quando o seu próprio conforto nunca esteve em jogo."


Eles saíram do café e caminharam em silêncio pela calçada. Passaram por um vendedor de pinhão que, sob o frio de Cidade Ventura, tentava aquecer as mãos no vapor da sua mercadoria. O homem mal os notou, concentrado apenas na sobrevivência do dia. Inácio e Clarissa olharam para o vendedor ao mesmo tempo. Naquele momento, o debate sobre pisos salariais e contracheques pareceu, por um breve segundo, uma discussão de outro planeta.


O encontro terminou com um aperto de mãos distante. Clarissa voltou para seus processos, Inácio para seus números. Ambos levavam a certeza de estarem certos, mas também a sombra de uma dúvida incômoda. A percepção do privilégio era, afinal, uma questão de perspectiva: quem está no meio da pirâmide raramente vê quem está na base, pois está ocupado demais sentindo o peso de quem está no topo. Em Cidade Ventura, como em qualquer lugar, a verdade dependia inteiramente de qual degrau você chamava de lar.