Helena nasceu com o cheiro de terra úmida nas narinas e o mugido suave das vacas como canção de ninar. Aos dez anos, enquanto outras crianças brincavam com bonecas, ela se sentava no pasto, observando a paciência rumiante de sua novilha favorita. Ali, entre o verde infinito e o céu aberto, ela sentiu um chamado que vinha de dentro: ela não queria apenas cuidar delas; ela queria salvá-las.
O momento decisivo veio em uma noite de tempestade. Helena segurou a lanterna para o pai enquanto ele ajudava em um parto difícil. Ao ver o primeiro fôlego de vida do bezerrinho e o alívio nos olhos da mãe bovina, a pequena Helena declarou com a firmeza de um adulto: "Eu vou ser veterinária". A fazenda, que era seu mundo, tornou-se sua missão de vida.
O tempo passou e o sonho exigiu sacrifícios. Aos dezoito anos, Helena trocou o horizonte de montanhas pelos prédios cinzentos da cidade grande. Foram dois anos de asfalto, barulho e saudade, estudando intensamente para entrar na faculdade. O adeus temporário ao seu irmão mais novo, Gabriel, foi a parte mais difícil, mas a promessa de voltar com conhecimento era o que a mantinha em pé.
Aos vinte e dois anos, Helena retornou triunfante. Ela não era mais apenas a filha do fazendeiro, mas uma mulher determinada com um estetoscópio na mochila e as mãos prontas para o trabalho. Ao cruzar o portão, Gabriel, agora um rapaz de dezesseis anos, correu para abraçá-la. A parceria entre os dois seria o alicerce de uma rotina que testaria todos os seus limites.
A vida no campo não perdoa os tardios. Todos os dias, às quatro da manhã, antes mesmo do sol pensar em nascer, Helena já estava de pé. O frio da madrugada cortava o rosto enquanto ela caminhava para o curral. A lida começava com a ordenha, um ritmo hipnótico e cansativo que exigia força nos braços e paciência na alma.
Às vezes, o dever chamava de forma urgente. Em uma manhã úmida, uma das vacas entrou em trabalho de parto complicado. Com a ajuda técnica de Helena e o apoio constante de Gabriel, que segurava as cordas e acalmava o animal, eles trabalharam por horas. A exaustão física era esquecida diante da responsabilidade de garantir que duas vidas saíssem daquela baia em segurança.
Nas salas de aula da universidade, Helena era um contraste vivo. Enquanto seus colegas falavam de teorias, ela ainda carregava o cansaço real do campo sob os olhos. Mas nada a distraía. Cada aula de anatomia ou patologia era uma peça do quebra-cabeça que ela aplicaria na prática na manhã seguinte. O sono tentava vencê-la, mas a imagem das vacas esperando por ela era seu combustível.
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